Os Filmes da Ana Marta

Ela imagina e eu escrevo…

Filme #3 “Crime perfeito em 7 lições”

Eu sei que sou o melhor. Sei. Não fosse esta vontade de vos contar…

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Eu mato. Mas faço do meu trabalho uma arte! Ninguém vai acreditar, mas eu mato. Eu cometi os mais brilhantes crimes. Sim, posso dizer sem modéstia alguma – sejamos honestos – que cometi vários crimes perfeitos. Não fosse esta vontade de vos contar…

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Um artista pinta um quadro para se ver exposto numa qualquer galeria. Um cineasta realiza um filme para ser admirado por muitos numa sala escura. Um padeiro amassa o seu melhor pão para que todos tenham um pedacinho de si em si. Então, para que mato eu se não é para ser famoso pelos meus crimes? Eu não mato por contrato. Eu não mato porque as minhas vítimas o mereçam. Eu não mato por vingança. Nem por paixão. Nem por nenhum motivo especial. Para vos dizer a verdade, não tenho nada pessoal contra as minhas vítimas. Mato porque nasci para isso. Mato porque gosto. Mato porque sinto essa necessidade. E porque sou bom no que faço!

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Eu sei… não fosse esta minha particularidade, eu seria igual a tantos vocês. Seria só mais um. Sem contar com o meu dom, eu sou de facto igual a vocês. Eu sinto, eu falo, eu relaciono-me, eu como, eu durmo, eu vivo. E eu tenho um ego! Sim… a minha única fraqueza, sei-o agora. A única coisa que falhou, aquilo que me fez ser apanhado. Eu precisei contar. Não porque me sentisse culpado! Não! Já vos disse, eu adoro o meu trabalho! Não porque sentisse remorsos, arrependimento ou outra coisa qualquer dessas que vocês sentiriam se fizessem o que eu faço (ou fazia). Simplesmente precisei de reconhecimento. Sabem? O que faço é muito solitário. Até eu me sinto só, até eu preciso de alguém que me diga que o que faço foi bem feito. Eu sei que o fiz bem, mas seria bastante bom se de vez em quando alguém me desse uma palmadinha nas costas.

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E agora, aqui, encerrado, a única coisa que me resta é a minha lembrança. Eu fui grande, sabem? Eu fui muito bom! Mas não… tinha de vos contar… Mas talvez seja o melhor. Agora posso contar-vos tudo! Finalmente posso ser famoso! Uns precisam morrer para serem famosos. Eu precisei ser apanhado. Pronto, é só isso. Não fosse aquela mania estúpida (muito em voga, diga-se de passagem!) de partilhar tudo com todos e ainda mataria mais uns quantos. Enfim… Ao que íamos.

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LIÇÃO Nº1: O que é o crime perfeito?

Fácil… pensem lá um bocadinho. O crime perfeito é aquele pelo qual não foram apanhados! Deixem a vítima, deixem a arma do crime, deixem tudo, mas não se deixem apanhar! E como é, perguntam vocês, que uma pessoa não é apanhada pelo crime que cometeu?

LIÇÃO Nº2: Características de um assassino

Não sejam vaidosos. Vá, eu já passei por isso, estes conselhos não são gratuitos. Estes conselhos custaram-me a liberdade. Não sejam vaidosos, não busquem reconhecimento, sejam pacientes e disciplinados. Estudem, façam o vosso trabalho de casa. Sejam organizados, planifiquem, limpem. Não tenham um modelo de vítima, afinal, é só uma pessoa a ser abatida, nada mais. É trabalho e nunca devemos misturar prazer com trabalho. Ponto final! Da mesma forma, não matem sempre da mesma maneira ou com as mesmas armas. Sejam criativos!

LIÇÃO Nº3: Como escolher a vossa vítima

Não a escolham! Deixem que seja ela a ser escolhida. Explico, sim, tenham calma. Sabem aquela teoria que diz que todos nós estamos separados por apenas 6 conhecidos? Sim, aquela, a teoria dos seis graus de separação. Sabiam que basta haver seis laços de amizade para que duas pessoas estejam ligadas entre si? Em teoria, todos nos conhecemos, mais seis menos seis… Pois, por isso tenham atenção e não escolham a vossa vítima, não socializem com a vossa vítima, não tenham qualquer contacto com ela, com os que lhe são próximos nem com ninguém que com ela se relacione. Eu consegui! Já vos disse, só fui apanhado porque tive esta necessidade estúpida de ser reconhecido pelo meu trabalho. E agora quero contar-vos tudo. Sim, já que aqueles atados não foram capazes de desvendar os mistérios da minha genialidade.

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Abram parêntesis. O meu método era bastante simples: de um qualquer café, de um qualquer canto do mundo, eu comprava online. Coisas, não interessa. Mas sempre a pares. E que esses pares viessem da mesma cidade (mas não do mesmo site!). De uma compra subtraía uma morada para a minha vítima. Da outra compra subtraía umas impressões digitais, um possível cabelo ou até talvez um pedacinho de unha ou pele. Às vezes até conseguia saber o perfume! O que interessa é que através de duas compras eu conseguia uma vítima e um culpado. Durante vários meses estudava cada um deles. Mas estudava a sério! Eu não brinco com o meu trabalho!

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LIÇÃO Nº4: Planificação

Isso, planifiquem. Depois de conhecer as vossas vítimas, confirmar que não têm qualquer relação entre si, conhecer os seus horários, os seus hábitos. Depois de saber os seus prazeres e os seus ódios. Depois de os conhecerem tão bem que são capazes de adivinhar o que estão a pensar. Só depois disso, comecem a planificar. Escolham um método, uma arma, uma hora, um local e podem até escolher uma história. Sabem, aqueles que vão investigar o vosso crime vão precisar de uma história, de um motivo. Naquelas mentes pequenas não cabe que alguém mate só porque nasceu para matar. Eles não acreditam que alguém mate só porque sim. Por isso, criem uma boa trama à volta da vossa vítima e do vosso culpado. Planifiquem bem! Uma boa planificação é a chave do vosso sucesso!

LIÇÃO Nº5: Sejam invisíveis

Com isto quero dizer que não devem ter qualquer relação com o crime. Nenhuma! Ajuda ter várias identidades. Não as repitam, claro está! No vosso dia-a-dia sejam vocês, aquele com quem nasceram. Sejam a pessoa com relações, com amigos, familiares e conhecidos. Sejam um mais. E para cada crime sejam uma pessoa diferente. Nunca deixem traços da vossa presença no crime. Tenham sempre uma boa explicação para a vossa ausência como pessoa. Ajuda se o vosso trabalho normal (por assim dizer) exigir que façam várias viagens. Ajuda se trabalharem desde casa, sem colegas intrometidos e justificações desnecessárias a dar.

LIÇÃO Nº6: Limpeza

Limpem tudo! Não me refiro à cena do crime. Essa não tem nada a ver convosco. Não se esqueçam, vocês são invisíveis e não têm qualquer relação com o horror que foi cometido. Limpem a identidade que usaram, limpem os vossos passos, limpem o vosso corpo, não deixem nada para trás, não tragam nada convosco. Lamento, mas nada de troféus nem coisas do género. Nunca entendi muito bem essa necessidade de trazer um pedacinho da vítima… Isso é macabro! Desfaçam-se da roupa que usaram, dos planos que fizeram, das ferramentas que utilizaram, das coisas que compraram, de tudo, vá, sejam espertos!

LIÇÃO Nº7: Periodicidade

Aqui não há muito a dizer. Não sejam gulosos nem gananciosos. Não queiram tudo de uma só vez e desfrutem de cada morte ao máximo. Afinal, trata-se da vossa vida! Eu nunca matei mais de duas vezes por ano. Não dêem motivos àqueles estúpidos para acharem que estão atrás de um serial killer (gosto destas palavras!).

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E pronto, por hoje é tudo. Agora tenho de ir, este computador não me pertence. Há uma fila de burros atrás de mim para o usarem. Acham que me esqueci de alguma coisa? Acrescentariam mais alguma técnica para cometer o crime perfeito? Se acham que são mais espertos do que eu, não hesitem em deixar um comentário. O propósito deste blog é ser lido, certo? Nunca pude coleccionar nenhuma notícia que se referia a uma das minhas obras de arte (limpeza, limpeza limpeza, lembram-se?), o que me resta é a minha lembrança. O que me resta é este blog… Por isso, alimentem-me só mais um bocadinho e leiam-me, comentem-me. Vemo-nos na próxima semana!

Filme #2 “Culpa Lavada”

Não! Não vás! Não podes ir… – Tenho de ir. É trabalho. – Mas à custa de quê? Não vês que vais trabalhar para um tirano? Um ditador? Vais proteger a vida da pessoa que mais odiamos? Ele devia morrer, não ser protegido… – Lindo, tenho de ir. Há meses que não encontro trabalho e as contas não se pagam sozinhas.

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Amália era uma mulher robusta, alta, cabelo loiro cortado à escovinha. Tinha maneirismos masculinos, porte masculino e não era bonita. Além disso, não tentava contrariar essa sua natureza. Não gostava da vulgar roupa de mulher, não se maquilhava e muito menos usava tacões. Em vez disso, partilhava a roupa com o seu marido. Mas tinha algo que chamava a atenção de António, ainda mais alto e duro que ela. Amália era uma excelente e generosa amante, uma confidente, uma companheira. E se nos acercássemos o suficiente, podíamos descobrir-lhe um íntimo extremamente delicado. Através do seu olhar verde água podíamos adivinhar esse feminismo, não disposto a entregar-se a qualquer um. Os dois formavam um estranho casal. Porém, estavam juntos há mais de vinte anos. Ela sempre havia trabalhado na área da segurança e ele desgastando o corpo na construção. Este último ano tinha sido difícil para os dois.

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Meu amor, são só algumas horas. É só uma festa. Depois, pagam-me (e bem!) e acabou-se. – Tens a certeza? Estás mesmo segura de que é isso que queres fazer? Sabes o que ele faz? Não preciso de te dizer… tu, como eu e como toda a gente, sofres directamente as consequências deste maldito bárbaro ter chegado ao poder. – Sim lindo, mas tu não tens trabalho. Eu faço uns biscates de vez em quando que mal chegam para pagar as necessidades mais básicas. Assim não podemos continuar. O desespero mata-nos o orgulho. – Pronto… não vou cuspir no prato que me alimenta. Só espero conseguir dormir. Quando tens de ir? – Amanhã. Volto no dia seguinte pela manhã.

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Todo aquele luxo horrorizou Amália. Todo aquele mau gosto escandalizou Amália. O paço não só era enorme, como era feio. Sabia que já tinha visto aquela casa algures. Aquele jardim versailhano transportava-a para uma época à qual não pertencia e soube, desde o momento em que pisou aquela suave gravilha, que tudo naquele palacete ia ser falso. Uma cópia de algo que nalgum momento da história foi considerado belo. Uma cópia de tudo o que o dono considerava chique. Uma cópia ostensiva de mau gosto. Logo ao entrar, sentiu-se engolida por uma fachada barroca preenchida com demasiados detalhes pintados a ouro. Estranhamente, Amália encolheu-se e minguou. Já não era a segurança segura de si mesma. Por breves instantes deixou de ser a grosseira matulona e passou a ser a débil criança.  Depois entrou. E teve de se conter para não soltar a sua tristeza.

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Hoje é a grande festa de inauguração do Palácio de Dom Anastácio Correia. Há um ano havia comprado este belo e decadente imóvel e finalmente as obras de remodelação tinham acabado. Há um ano tinha contratado os melhores arquitectos, os mais prestigiados decoradores e os mais famosos curadores de arte. Todos para satisfazerem a sua necessidade de alardear o quão rico, poderoso e maléfico era. Todos uns submissos frustrados… Tinha de mostrá-lo a toda a gente! Hoje, o culminar. Convidou mais de quinhentas personalidades de todo o mundo. E quase todos tinham confirmado a sua comparência. Anastácio estava em êxtase.

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Alguém levou Amália para uma breve visita guiada pelo sumptuoso palácio: a sala das jóias, que haviam sido compradas de propósito para encher mais uma sala de luxo e ostentação e que ninguém usava; a sala de música, com um piano que ninguém sabia tocar; a biblioteca, com paredes forradas de livros que ninguém havia lido; o salão de baile, a sala de cerimónias, a de jantar… quantas salas vazias de personalidade! Quanta fraude!

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E depois o confronto: uma vez mais conteve-se. Mas desta vez para não gritar a sua raiva. O homem era semelhante à sua casa, um exagero. No corpo, nas vestimentas, nos gestos, no discurso. Tudo nele era falso, copiado, forçado. Mas lembrou-se, só tinha de escutar as ordens e cumprir o dever. Depois seria paga e ir-se-ia embora. A festa começaria daí a uma hora e a sua única tarefa era segui-lo para todo o lado. Fácil. Ou não. Porque além de ser pérfido também era odiado.

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Tudo parecia correr de acordo com o esperado. Uma multitude de insídia já bêbeda e encanecida. E Amália sóbria, segura, pesada e competente. E é ali, ali ao fundo que o vê a roubar aquelas infames jóias. Discretamente, afasta-se um pouco do Dom e dirige-se ao ladrão. Quando o tenta agarrar pelo braço, na tentativa de o identificar e denunciar, este solta-se e esfuma-se agilmente por entre aquele vespeiro. Amália perde-o de vista, mas não se preocupa. De consciência leve, admite que não a preocupa minimamente que aquele asqueroso tenha sido roubado. E a festa continua! E é todo um êxito! Objectivo concretizado: ser idolatrado pelos convidados, abominado pelo povo. Amália mantém-se em silêncio, no seu posto de sombra. E de repente, quase sem dar por isso, está a sair pelo imenso portal por onde, horas antes, havia duvidado entrar. Com ela leva um sorriso, uma conquista, sustento para dois meses e, sem saber, uma vida de marginal. Ninguém deu pela falta das malditas jóias, nem o seu dono! Só ela e o esquivo gatuno.

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Rendida mas feliz, Amália deixa-se cair ao lado de António. Não se despe, não se move, dorme profundamente. E ele acaricia-a e deixa-a estar. Já a meio do dia, levantam-se da cama e iniciam a sua rotina de eternos apaixonados. Banho, amor e comida. Não existe mais nada que os satisfaça. Mas hoje é diferente. Ao despir-se, ela nota que nos bolsos do seu negro casaco se escondem brilhos que não reconhece. Chocada e em pânico examina aquele conteúdo, são as tais jóias… aquele… não posso crer! António! Não acredito nisto! O que faço! Diz-me! Ajuda-me! – Calma linda, fui eu. Fica calma que te explico tudo. Não podia deixar que aquele tipo saísse impune, não podia! – Mas António… o que fazemos agora? – O mesmo de sempre, durante uma semana. E depois desaparecemos. – Mas amor… como? O que é que fizeste? – Nada que ele não merecesse (e Amália estava de acordo). Agora vamos para o banho e eu conto-te tudo.

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Naquela manhã tudo foi mais intenso para Amália. O banho lavou-lhe a alma. O sexo soube-lhe a uma primeira vez. O pequeno-almoço degustou-o como se de um manjar de reis se tratasse.  E as palavras de António soaram-lhe à mais bela melodia que alguma vez tinha escutado. Abraçou-o e abraçou a sua nova vida de marginal. Mas não se preocupou. Ninguém deu por eles. Ninguém os conhecia e ninguém os procurava.

*** FIM ***

Filme #1 “Infantil Confiança”

Alta, delgada, pose de bailarina. Uns olhos verdes humildes que escondem uma tristeza não sentida. Tenso, alto e forte. Cara severa, sorriso encantador que revela uma gentileza contrastante com o seu porte zangado. Recém casados à procura de um apartamento num país que desconhecem. Ele conseguiu um bom trabalho e ela segue-o na esperança de encontrar o seu espaço num mundo laboral competitivo e fechado.

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Está um dia enganadoramente claro. Nesta zona não é comum um céu tão azul, um sol tão brilhante e um Mont Jura tão transparente. De mãos dadas, dirigem-se a mais um apartamento. – Será este? Já estou cansada de ver tanta casa!

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Enquanto ele observa com atenção cada pormenor de cada divisão do apartamento, ela detém-se na sala. Ainda está em obras, há caixas e materiais de construção espalhados pelo chão. Agachado num canto, concentrado em algo que para ele deve ser importante, nem dá pela presença de Alice, que o olha intrigada. Ele é franzino, encolhido, usa óculos mas no fundo sabemos que não é tão inteligente como quer fazer parecer.

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Sem medo, criança, arrisca – Hi there! Do you speak English? – Quê? Oh senhora… não me faltava mais nada! – Ah, é português! Que alívio! Nervoso e um tanto curioso, Afonso sente-se imediatamente compelido a gostar daquela bailarina. Vê nela uma confidente. Não sabe porquê, mas sente que lhe pode contar tudo. Mas ainda não, ainda é cedo e não se pode desmascarar tão complacente. – Acha que falta muito para terminarem as obras? Este apartamento agrada-me muito. – Com exactidão já sabe que não lho posso dizer, mas eu diria que devemos acabar lá para o fim da semana.

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Mesmo sabendo que as obras vão durar mais do que inicialmente lhes foi dito, Óscar e Alice decidem ficar com o apartamento. É luminoso, pequeno mas bem distribuído. A cozinha está equipada e só precisam de comprar alguns móveis. Ela está feliz e já começou a idealizar os seus dias de decoradora. Ele finalmente pode relaxar e começar a concentrar-se no trabalho.

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Todas as manhãs daquele mês, Afonso chegava com um sorriso na cara e dois cafés nas mãos. Adorava a presença dela, a sua tranquilidade e disponibilidade. Ela adorava ouvir as suas histórias, inocente não questionando a veracidade da imaginação. Ele pintava, arranjava, ligava. Ela limpava e sentava-se a ouvir. – Conta, conta! Quero mais uma! Ele deliciava-se com a sua ânsia de criança. Finalmente podia partilhar o que mais o atormentava, ainda que soubesse perfeitamente que para ela não passavam de histórias imaginadas por um zé ninguém à procura de um público disposto a ouvir os seus devaneios.

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E começa – Ontem à noite tive de matar mais uma. Não consegui resistir! Já não aguentava mais… Uma semana! Aguentei-me uma semana! Mas esta estava ali à minha espera! E dizia-me vem, mata-me, estou aqui para ti. Acreditas? Não tinha as minhas ferramentas, mas estávamos na cave e havia uma caixa cheia de canetas. Canetas Bic, daquelas simples, sabes? Não sei por que estavam ali, só pensei que estavam porque queriam ser utilizadas. Na cara dela vi agradecimento, a sério que vi! Acreditas? Um golpe na jugular e os seus olhos tristes apagaram-se. – E depois? O que fizeste com o corpo? – Fiquei a olhar para ela. Era linda! Mais linda morta que viva! Acreditas? Acreditas que alguém pode ser mais lindo morto que vivo? Devem ter passado muitas horas, porque acordei abraçado a ela e foi aí que me apercebi do que tinha feito. Escondi-a numa das caixas grandes que estão na cave. Ainda lá está. Não sei o que vou fazer com esta.

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Ela ouvia, atenta e encantada. Odiava estar sozinha e desde que começara a ouvir as histórias mirabolantes de Afonso sentia-se mais acompanhada, entretida e ocupada. Era muito aborrecido não ter trabalho. Não ter uma obrigação, uma rotina, objectivos. Mas com Afonso o tempo passava a voar. Almoçavam juntos e Alice nunca questionou a sua imaginação. Nunca pensou que tais criações pudessem não o ser. À noite, quando jantava tranquilamente com Óscar, contava-lhe tudo. E Óscar não ouvia. Óscar andava preocupado, trabalhava demasiado. Tinha de mostrar que os seus chefes tinham feito uma boa aposta. Tinha de apresentar resultados. Mas Alice parecia não importar-se. Ele estava calado e falsamente atento e para ela isso chegava.

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Aquele mês acabou abrupto. Uma ilusão, um conto verdadeiro. A criança é tristemente expulsa quando Alice encontra uma caixa manchada de sangue. Uma simples caixa de cartão, ali, no chão da cave junto aos contentores do lixo. A dúvida instala-se. E logo, a visita daquele polícia, que falava num inglês perfeito apesar de ser francês. – Inspector, Sra. Alice, inspector. Não podia contar-lhe. Não. Afonso era seu amigo, o seu contador de histórias. Não era um assassino. – Sra. Alice, temos provas o bastante sólidas para acusar o Sr. Afonso de vários crimes que têm vindo a acontecer ao longo deste ano. (O edifício onde vivia não tinha um ano de existência? Não podia ser…) E continuava, indiferente à palidez mórbida da bailarina. – Encontrámos vários corpos em decomposição, armazenados em caixas, na cave deste mesmo edifício. Encontrámos várias manchas de diferentes tipos sanguíneos… – Humanos? Todos? – Sim, Sra. Alice, posso garantir-lhe que encontrámos mais de cinco tipos diferentes de sangue, todos de mulher. Encontrámos diferentes objectos que foram utilizados como armas de crime, entre eles uma esferográfica, todos com a mesma impressão digital. O seu amigo não foi nada cuidadoso. Até parece que não sabia o que estava a fazer e ansiava por ser descoberto. Acrescentava, condescendente e imune à tristeza daquela frágil mulher. – Não sei dizer-lhe onde está. Costuma vir todas as manhãs para dar os últimos retoques no apartamento, mas hoje não apareceu. Não o posso ajudar, lamento.

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Hoje o dia está normal, cinzento, opaco e molhado. Alice tem o apartamento decorado, terminado, limpo e lindo, tal como o tinha idealizado. Mas não está feliz. Como se pôde deixar enganar? Não eram meras histórias, produtos de uma fértil imaginação presa num corpo que não lhe pertencia? Ainda tentou ajudar Afonso na sua defesa. O pobre não falava francês, não entendia inglês e esfarrapado depois de preso, arranhava um português que ela não reconhecia. Mas não foi capaz… Deixou de ver nele a pessoa inteligente, amável, calma e imaginativa e passou a vê-lo indecente. Era até incapaz de olhar para ele. Sempre que falava dele, baixava vergonhosamente a cabeça. E Óscar finalmente entendeu a tristeza nos olhos da sua mulher.

*** FIM ***

Sobre os filmes da Ana Marta…

Ela imagina, eu escrevo…

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A Ana Marta tem uns sonhos muito particulares. São como filmes que ela tem a capacidade de controlar, como se de uma realizadora se tratasse. De manhã, quando desperta com calma, é capaz de recordar esses sonhos e às vezes até os pode manipular a belo prazer.

Quando isso acontece, conta-mos e eu transcrevo-os.

 

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